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Estórias e Depoimentos

O Aerograma
por Henrique Carvalho
1º Cabo cozinheiro da CCS.
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Naquele tempo a maioria dos namorados/as não falavam em beijinhos nem
abraços, mas como a perspicácia aguça a astúcia, escrevia-se ou faziam
uns desenhos com tinta de várias cores, em traços ou pintinhas formando
lábios, corações, olhos, lágrimas, seios, e até esboços de orgãos
genitais como mensagem de amor e paixão. Vi disso.
Vi um aero escrito de tal forma e em letra miudinha, que apresentava a
namorada de um magala nua, segundo ele, era uma imagem perfeita. Uma
autentica obra de arte.
O aerograma foi muito inportante para a nossa comunicação com
familiares, amigos e namoradas.
Era oferecido pelo MNF, Movimento Nacional Feminino.
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O Aerograma
O “Aero” de
ténue cor
E de feieza
acentuada
Levava e trazia a dor
E notícias da
namorada.
Escrevíamos no
interior
Também escrevíamos nas
abas
Muitas promessas de
amor
Para as nossas
namoradas.
Neles, recebíamos
delas
Frases dizendo desejos
Desenhos e pinturas
belas
Mostrando abraços e
beijos.
Era nos disfarces das
tintas
Que se mostrava a
paixão
Trabalhos com muitas
pintas
Salpicados emoção.
Corações, lágrimas,
lábios
Desenhados a mil cores
E outros traços belos
e sábios
Dizendo mensagens
maiores.
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Corríamos ansiosos
Quando o clarinete
chama
Que momentos amorosos
Ao lermos o Aerograma.
Era grátis, prático e
feio
E tinha uma forma
esquisita
Dobravam-se as abas e
a meio
E colava-se com aquela
fita.
Depois da direcção
posta
Dávamos-lhe um beijo
de amor
Salvo se a resposta
Fosse de raiva e
rancor.
Alguns causaram
paixões
Que deram em casamento
Outros finaram ilusões
De promessas sem
sentimento.
Foram para madrinhas
de guerra
Vizinhos, familiares e
amigos
O Aerograma encerra
Segredos dos quatro
sentidos.
Henrique António
Carvalho
2009/06/20 |
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Estórias de tropa e caracois
por Henrique Carvalho
1º Cabo cozinheiro da CCS.

Foto tirada em 25 de Janeiro de 1971, dia em que
fui “deportado da vida civil para a vida militar”.
Naturalmente que todos nós tínhamos cara de poucos
amigos ao sermos confrontados com o “rigor” do RDM e de quem, às vezes, o
aplicava.
Lembram-se da história dos “superiores” que
mandavam formar alguns recrutas, para irem debaixo de chuva retirar uma “trave”,
só porque um estúpido qualquer ao acender um cigarro lançou um fósforo de
madeira para junto da entrada do gabinete de um superior???
Alguém de bom senso gramava isso??? - Mas… Era
tropa!
***

O soldado Henrique Carvalho na parada do antigo
Quartel da Póvoa de Varzim, aquando da especialização nas Culinárias.
Agora
reparem.
Na porta que
está por trás daquela árvore à nossa esquerda era a cantina.
Um certo
fim-de-semana apareceu um amigo que me ofereceu uma boleia para casa, mas eu
estava de serviço à Porta D’armas.
O Senhor
Sargento de serviço, homem bastante abonado de abdómen, ficou com pena de eu não
aproveitar a boleia e disse: -Azar o teu estares de serviço hoje!
Aproveitei a
oportunidade e indaguei: - Meu sargento, não há mesmo a hipótese de ir de
fim-de-semana?
Ele voltou-se
e disse: anda comigo.
Lá fomos pela
parada fora e ao entrar na cantina, alguém acaba de acender um cigarro e joga o
fósforo, lançando-o com o dedo anelar pelo ar e este, vai cair no peito do homem
enfiando-se pela abertura do blusão ainda a fumegar.
Por azar do
magala o homem viu quem fez esta tropelia. Chama-o com ar de zangado e
disse-lhe:
Ó magala viu
o que fez? O rapaz ia a falar e o sargento interrompeu:
Venha comigo,
está de reforço esta noite… e regressou para a porta d’armas. Quando chegamos,
mandou-me pegar na arma e disse:
Sentido, meia
volta volver, descansar, destroçar.
Ganhei com
esta injustiça, mas, não esqueci que aquele militar que ficou com o
fim-de-semana estragado. Para ele, se eventualmente passar por este blogue, vai
daqui uma saudação muito especial e amiga. Gostava de te conhecer.
***

Torres Novas, acesso à cozinha da Messe de
Oficiais. Henrique Carvalho aguardando a saída da mobilização. Estava mesmo com
cara de quem não estava nada interessado em guerra.
Foi aqui que
os colegas de Lisboa queriam ensinar-me a gostar de caracóis, Fomos apanha-los,
lava-los e cozinha-los. De seguida torraram pão e compramos cervejas. Começou a
patuscada.
Eles
deglutiam-nos afanosamente, eu, depois de meter o primeiro à boca fiquei tão
abarrotando que não consegui comer mais nenhum.
Preferi uns
nacos de frango assado que sobraram do almoço. Foi giro…
Obrigado
Ferreira, Batista, Taipina e Júlio…
Crónica de um Natal passado !
Por
António da Silva Machado -Ex-Escriturário da CART 3454/BART 3861
No
último Natal e recordando outros Natais, um inevitavelmente me assolou o
pensamento. Chegamos a Luanda no dia 23Dezº.71, o dia seguinte seria véspera de
Natal.
No Grafanil não seria muito convidativo passar a noite de consoada, pese todos
os esforços dos maiorais em nos proporcionar o melhor que fosse possível. Então
eu, Artur Bonito, Chico Vinagre, e outro camarada “velhinho” que não recordo o
nome, resolvemos “fugir” das lágrimas e saudades do primeiro Natal passado fora
das famílias e abre para Luanda.
Pela primeira vez na minha vida iria beber cerveja gelada e comer um prego com
todos no Floresta. Esse facto, por si só, fez esquecer que era noite de ceia de
Natal.
Desenfiados, dormimos no Regimento de Pára-quedistas e no dia seguinte – dia de
Natal – toca de arranjar onde almoçar, mas qual quê; estava tudo fechado!
Espreita aqui, espreita ali, fomos dar à Maria da Fonte onde espreitamos um
pequeno restaurante, encerrado, mas no interior os proprietários – um casal com
uma filha – preparavam o almoço para si.
Naquela do desenrasca militar, perguntamos, com o ar mais inocente: - Estão
encerrados? Resposta, mais do que esperada: Sim! Hoje não trabalhamos; É Natal!
Mas, numa hospitalidade tipicamente portuguesa, mandaram-nos entrar, dizendo: -
Hoje ninguém fica na rua. Entrem e comerão do que houver!
O que comemos não me recorda, nem isso importa para o caso. O fundamental foi a
simpatia com que nos acolheram e compartilharem o seu almoço connosco. Viemos a
saber, durante o repasto, que eram da zona de Aveiro (Verdemilho). E no fim
recusaram-se receber o valor que seria devido pela despesa.
O curioso é que, volvidos cerca de 20 anos, e no desempenho da minha vida
profissional, apareceu-me para atender um senhor que trazia uma balança
comercial para reparar. Como era próximo do meio-dia, teria de ficar para de
tarde. O senhor um pouco agastado, mas reconhecendo termos razão, não teria
outra solução se não aceitar a proposta.
Mas entretanto, não sei porquê, aquela cara era-me familiar. Algures tinha
falado com ele. Naturalmente, interroguei-o se não nos conhecíamos, ao que me
respondeu: - Não é possível, venho de longe e estive afastado muitos anos da
Metrópole!
Esta expressão – Metrópole – fez-me pensar em Angola e fez-se-me luz!
- Desculpe lá! O senhor não tinha um restaurante perto do mercado da Maria da
Fonte? Um pouco espantado, disse: Efectivamente era verdade!
Então disse-lhe: Não se recorda, por acaso, de um certo dia Natal em que
apareceram 3 intrusos para almoçar, estando vocês encerrados? Ao qual me
respondeu: Sim recordo! Não me diga que você era um deles? É verdade meu amigo -
disse-lhe eu.Quase em simultâneo, exclamamos: Como o mundo é pequeno!
E pagando-lhe uma dívida de gratidão que já tinha mais de 20 anos, convidei-o
para almoçar.
Desse
dia junto uma fotografia que não mostra as pessoas boas e anónimas que havia na
comunidade de retornados, mas, os que para além de mim lá aparecem, podem
testemunhar esta veracidade.
Braga,
20.Fevº.09
António da Silva Machado
Ex-Escriturário da CART 3454/BART 3861
Uma viagem quase sem regresso....
Por Joaquim M. C.
Prudencio Sold: T.R.M.S. 3454
Uma
tarde de um qualquer dia de Dezembro situado mais precisamente no ano de mil
novecentos e setenta, após vários meses de espera para que nos fosse cedido um
transporte até á província de Angola, entramos no velho comboio que nos haveria
de levar desde o apeadeiro de Stª Margarida até a Stª Apolónia (que coincidência
2 santas).
Devo anotar nesta minha narração de que desde o inicio da guerra nas províncias
me habituei (dado que sempre fui vizinho da linha do Oeste) a ver passar os
comboios especiais carregados com os mobilizados para o Ultramar, mais tarde
talvez já na época de Marcelo Caetano estes referidos comboios passaram a
circular só de noite, possivelmente para evitar o impacto nas populações,
pensava eu e a minha Mãe, a mim não me vai calhar, nessa altura a guerra já
terminou.
Ao partir de Stª Margarida, subitamente não há partida alguém partiu a
vitrine do pobre bar do apeadeiro. Investiga-se quem foi e finalmente lá
vamos de abalada a alta velocidade no ambiente mais pesado do que antes como se
tal fosse possível, comboio que apita sem cessar abrindo um caminho que de
véspera já à muito estava aberto, sobre um quase pôr do sol passagens de níveis
fechadas atempadamente viam-se muitos adeus sobre a forma de lenços ou um
simples acenar dos que ladeavam a linha férrea ou esperam a a abertura das
cancelas para poderem passar, todos nas janelas possíveis levando no seu intimo
não sabemos o quê, mas acima de tudo a incerteza do regresso, finalmente chegada
a Stª Apolónia de seguida o cais de embarque onde as senhoras do Movimento
Nacional Feminino nos dão um ultimo lanche composto se bem me recordo por uma
sameira de vinho e uma sandes e nos ofereciam também a oportunidade de o envio
de uma ultima mensagem para os que nos são mais queridos, finalmente a subida a
bordo do saudoso Vera Cruz que ao zarpar faz a despedida com estrondosos apitos,
nestas cenas que continuam gravadas na minha mente após estes anos não consta a
presença nem consegui ver a presença dos órgãos de comunicação social hoje
chamados dos Media, tal com hoje acontece, mas isso para a missão que nos
obrigaram não contava na altura.
Recordo ainda bem aquela cena de que, enquanto nós nos tentava-mos habituar
aquele transporte que nos ia servir de casa nos próximos nove dias até Luanda,
havia alguém que de automóvel se deslocava por a avenida marginal até Cascais e
quando conseguia se colocava virado ao Tejo e na nossa direcção fazia sinal de
luzes e assim foi até poder e a estrada o permitia, esse automóvel possível
dizia um ultimo Adeus a alguém em particular, mas, eu na altura aceitei-o como
uma ultima despedida e votos de regresso para todos, alguns ficaram mas vamos
continuar a recordar a sua memória aquando dos nossos encontros.
O Monumento da Alvorada
Por Henrique Carvalho
1º Cabo cozinheiro da CCS.

Tinham
acabado a obra.
O arquitecto
aprovou o trabalho dos construtores e faltava embelezar o local com um jardim.
A terra
estava dura dos trabalhadores pisar. Foi necessário cavar fundo e fertilizar com
estrume da pocilga.
O Manuel
forneceu o fertilizante e depois idealizamos o projecto de embelezamento com o
apoio do segundo comandante e a aprovação do comandante.
Um dia, eu,
Henrique Carvalho e mais outro colega, que já não lembro o nome, lançamo-nos ao
trabalho, recolhemos pontas de relva-graminha doutras partes do jardim e depois
da terra estar preparada procedemos à plantação.
O Tomé do
depósito de géneros, fotógrafo de serviço neste dia, passou e captou para a
posteridade a foto que mostra o nosso trabalho.
Pouco tempo
depois, estava pronto para a pomposa inauguração. O Monumento da Alvorada, havia
de simbolizar para a posteridade, a nossa passagem por terras de Zala.
Resta saber
se ainda existirá esta pequena, mas bonita e simbólica obra de arte que deixámos
naquele planalto.
Descrevo este
monumento como, um pedestal ostentando o emblema do nosso batalhão, onde se
ergue uma chama translúcida por raios de luz simbolizando o nascer do sol.
Gretado por frisos rectilíneos aparentando as construções tradicionais
portuguesas em granito e rodeado de relva verde em manifestação de esperança.
Foi ali que
se fizeram imensas fotos nos últimos dias que lá passamos.
Perdoem-me a
imodéstia, mas orgulho-me muito de ter participado neste momento tão simbólico
para o nosso batalhão
1ºs Cabos, José Maria
Azevedo, Sacristão à esquerda,
Henrique Carvalho, Cozinheiro à direita.

Pormenor artístico do monumento
Monumento da Alvorada, Bart 3861
Estrofes:
Que
alegria vive em nós
Acreditem, podem crer.
Uma
palavra do coração
Ao
batalhão que nos vem render.
Fica gravado em nosso coração
Nascer do sol em Zala.
E
recordamos pela vida fora
Com
o monumento da alvorada.
Refrão:
O monumento da alvorada
Quer-nos dizer que vamos rodar
No
meio do jardim de Zala
Ficou um monumento p'ra nos recordar
Henrique Carvalho 20/13/73-20/1/73
Nota: (Musicado em ritmo de marcha)
Amostra
por
Henrique Carvalho
Ali,
mesmo em frente ao gabinete do comandante, era habitualmente recebido por ele
para a apresentação da amostra da culinária confeccionada para aquele dia.
Desta feita,
o Sr. Coronel Fernando de Melo Vieira Ponces de Carvalho recebia o 1º
cabo Henrique Carvalho, acompanhado pelo soldado Crespim e aceitou fazer uma
foto para a posteridade.
Sabendo que
já partiu, fica este pequeno texto e foto em sua memória e em homenagem ao bom
relacionamento que sempre pudemos manter, salvaguardadas as devidas posições.
Zala, bela e perigosa
por José Manuel Figueiredo
Zala exigia muito mas também era estimulante e
provocava em nós a descoberta de soluções que nos levavam a ultrapassar as
maiores dificuldades.
Primeiro vejamos os recursos de pessoal:
A especialidade de atirador era constituída principalmente por
Cabo-verdianos, cerca de dois terços do nosso efectivo; os Sargentos e Alferes
das companhias eram todos milicianos; dois Capitães comandantes das Companhias
de Artilharia também eram milicianos e o terceiro do quadro, mas já antigo,
tendo sido promovido e substituído por outro também miliciano a meio da
comissão. O Comando era todo do Quadro e veterano.
Em Zala fomos encontrar dois guias excepcionais - o Zacarias, que tinha sido
guerrilheiro do MPLA, e que depois de torturado pela UPA que lhe arrancou a
barba com alicate, se dedicou a nós e foi o nosso mestre prático na luta
subversiva; e o Domingos Jones, chefe da sanzala, homem conhecedor da história
do seu povo e daquela região, muito sensato e dedicado - sempre que saíamos em
patrulha com eles, adivinhavam as minas e emboscadas.
Recursos morais:
Demos a instrução de especialidades e formamos o Batalhão em Torres Novas a
partir de soldados com a instrução básica feita em várias unidades e com o
relato de insubordinações e indisciplina; aprofundando as razões soubemos que
tinham sido aliciados com promessas de virem de Cabo Verde para Portugal para
ocupar o lugar dos que partiam para a guerra ultramarina, e que não tinham
direito a aerogramas nem a subsídio de deslocação. Esclarecidos e resolvendo
imediatamente as questões fundamentais, passámos a primeira semana em
desinfecções, limpezas, pinturas, melhoria das condições de vida e tratamento
igual. A partir daqui foi um batalhão exemplar obtendo o 1º lugar na
classificação do IAO, por isso destinados a Zala. Depois do comportamento
excepcional em combate, acabámos a comissão em Malange, tendo regressado de
Angola em Março de 1974.
Recursos materiais:
As viaturas e armamento pesado eram bastante velhos, mas com uma manutenção
cuidadosa e engenho e arte para solucionar os problemas que apareciam, sempre se
manteve um elevado grau de prontidão. Sendo uma zona de combate activo, forte e
esporádico, também era apoiado com prioridade, com frescos e correio quase
diários e sobressalentes em todos os MVL.
Os primeiros 6 meses foram marcados por um trabalho progressivo de recolha e
exploração imediata de informações que foram produzindo bons resultados. A 2ª
parte da acção naquela área foi marcada pela protecção à abertura de uma estrada
pelo meio das matas para chegar ao rio Loge e fazer uma ponte de ligação ao Tôto,
para cortar a linha de abastecimento do inimigo. e começámos a sofrer emboscada
atrás de emboscada, ficando totalmente empenhados na protecção aos trabalhos de
engenharia. Lá chegou o mês de Fevereiro e a rendição para Malange.
As estórias de Zala
por José Manuel Figueiredo
O Elefante Dum-Dum -
Dos 3 carros de combate M5Al só um parecia merecer a alcunha de Elefante
Dum-Dum, mas sem condutores, mecânicos e sobressalentes, não podíamos fazer
reviver as aventuras porque tinham passado. Contudo, quando os quiseram evacuar
para Luanda em Março de 1972, pediu-se para ficar um a servir de bastião de
defesa no sítio mais elevado e com os nossos mecânicos de artilharia lá se
conseguiu que fosse da "ferrugem" até ao seu posto, e foi fazendo fogo com o
canhão, em resposta a flagelações ou para intimidar. Passou a ser mais um icon
de Zala!
Rádio Zala - Havia também a Rádio Zala, feita a partir de um AN/GRC9 modificado, que
chegava à Madureira e Belavista, onde estavam destacadas duas Companhias, para
delícia dos nossos soldados que pediam e dedicavam músicas uns aos outros, com
discos emprestados pelo Rádio Clube de Luanda; soubemos depois que era ouvida na
mata e passámos a desenvolver uma acção psicológica que surtiu efeito, havendo
algumas apresentações no final da estadia em Zala.
Fábrica de tijolo -
E
o unimog ao pé coxinho, para utilizar como força motriz numa fábrica de tijolo,
que montámos com
salvados da Fazenda Maria Teresa abandonada e saqueada desde
1961, bem como a serração : a técnica era passar uma correia de transmissão pelo
apoio traseiro da roda de um unimog sem pneu, levantado só de um lado com um
macaco, e a outra roda bem firme e travada: Depois apareceu um voluntário que
sabia fazer um forno de tijolo e a partir daí já tínhamos material para
construir vários edifícios.
A Lavandaria Zala -
Também se inventou a Lavandaria Zala com uma betoneira bem lavada, com 200
litros de água quente e um pacote de Omo, que muito ajudou à higiene daquela
população que chegava a ser de 1000 homens quando havia operações conjuntas.
A Piscina -
Redescobriu-se uma antiga piscina que estava soterrada e que foi reparada com
os tijolos locais e que ainda serviu de
descontracção e para desanuviar o
isolamento.
Boite Os Vampiros -
Ainda nasceu a Boite Os Vampiros com os tais tijolos e um morcego enorme em
baixo relevo modelado por um Sargento que frequentava as Belas Artes.
Pisteiros do ar
- um dia ficámos sem comunicações com um pelotão que andava em patrulha
havia dois dias. Chamado um Dornier para reconhecer o itinerário planeado foi-se
à procura deles. Ao fim de uma hora infrutífera, resolvemos baixar até à altura
da copa das árvores e procurar pegadas do ar. Andámos aos SSS até encontrar o
rasto que nos conduziu ao pelotão que afinal só tinha as pilhas gastas.
A pacaça na armadilha - O perímetro de Zala estava armadilhado para prevenir
ataques, e nas noites de lua cheia era vulgar acontecer que uma cabra ou outro
bicho selvagem tropeçasse no fio da armadilha. Daquela vez foi uma pacaça que
deu uns bons bifes para o rancho.
200 litros de chá - os pilotos sedeados em Santa Eulália preferiam a nossa
companhia e sempre que podiam faziam um desvio quando iam ou vinham de Luanda.
Uma vez pelo Natal coincidiu um Alferes receber um bolo-rei de Portugal e o
piloto aparecer. Em vez do costumado whisky ou cerveja para acompanhar, achámos
que era mais próprio fazer chá para o bolo e assim pediu-se para fazer chá para
toda a gente; ao fim de uma hora de espera viu-se que o cozinheiro estava a
tentar ferver 200 litros de água num bidão !
O cemitério intocável - numa das operações fomos incumbidos de reconstruir os
pontões da picada Fazenda Maria Teresa já mencionada. Construímos uma base
táctica com todos os pormenores incluindo um forno de pão a gasolina, pois foi
uma obra que durou mais de 15 dias. No caminho encontramos um cemitério nativo,
com flores frescas, o que mostrava ser visitado regularmente. Alguém propôs que
se fizesse ali uma emboscada, mas soubemos que ali nunca tínhamos sido atacados,
pelo que se resolveu manter aquele lugar como território neutro.
O
avião pião: Os pilotos da FAV (Força Aérea de Voluntários) tinham como missão de
vez em quando treinarem os voos em
Dornier visitando unidades em zonas de
combate. Um belo dia soubemos que viria um destes pilotos com o nosso médico e o
capelão que tinham ido assistir a companhia da Bela Vista de coluna auto e
aproveitando a boleia regressavam no DO. Ora a pista de Zala era como um porta
aviões – 600 metros cortados no monte que era a nossa sede, com uma zona inicial
e final de aterro e o meio em corte com os lados mais altos; por isso era
preciso aproximar-se por alto, baixar em perda, e dar motor quase a aterrar.
Aquele piloto estava habituado a pistas longas em terreno plano pelo que se
aproximou mais baixo do que costume e ficámos a observar com mau pressentimento
aquela aterragem. O avião foi sugado pelos ventos descendentes perto do início
da pista, o piloto acelerou ao máximo, mas não conseguiu evitar que a cauda do
DO se partisse ao bater no terreno e começou a ziguezaguear e nós a pensar que
se saísse logo ali da pista, capotava, e se fosse mais à frente batia na
barreira; pois saiu na zona nivelada – mas foi direito aos edifícios duma
companhia – e quando se esperava o desastre, a ponta da asa bateu num poste de
iluminação, rodou duas vezes e quedou silencioso a um palmo da parede! Os três
saíram do avião pálidos e a tremer, sem perceberem como se salvaram a não ser
com uma ajudinha lá de Cima!
O cão que regressou: o Rec era um pastor alemão mascote do Pel Rec , que
acompanhava sempre o pelotão nas suas saídas. Um dia foram levar abastecimentos
à Companhia da Bela Vista e no regresso caíram numa emboscada no Bico do Pato.
Quando se ouviu o estrondo da mina anti-carro ficamos com o coração apertado
sem saber o que tinha acontecido e só meia hora depois conseguimos ligação rádio
e ficámos a saber que havia alguns feridos. Saiu logo outro Pelotão de socorro
que já estava pronto, e lá se trouxeram os homens e a viatura a reboque. No
quartel notámos que faltava o Rec sem saber o que lhe tinha acontecido, pois na
confusão da reacção ninguém deu pela sua falta. Um mês depois apareceu-nos o
fiel Rec, magro, com feridas abertas, mas com um olhar carente e feliz por ter
regressado. Não durou mais um mês, mas foi sepultado ao lado dos soldados
valentes que também tinham vertido o seu sangue!
Quadras Soltas
Escritas pelos nossos soldados para o jornal do Bart 3861 – O
Foguetão
por José Manuel Figueiredo
É o último Foguetão que de Zala
vai partir,
Foguetão como o nosso nunca mais
cá deve vir.
Adeus ò Zala velhinha, jamais cá
quero voltar,
Quantas noites eu perdi, no
posto para te guardar.
Adeus ò morro da UPA, és o morro
mais falado,
Olha que o oitenta e um está
para aí apontado.
Adeus maiquinhos do Zala com as
fardas a brilhar,
Os velhinhos vão p’rá city com
alegria a cantar.
Quanto ao grande campeonato que
em Zala se realizou,
Com cinco bolas a zero foi a CCS
que ganhou.
Os craques da CCS nunca poderiam
perder,
Pois além dos cinco a zero,
deram-lhes baile a valer.
De Zala para Malange demos a
nossa partida,
Pois nesta linda cidade já
gozamos melhor vida.
Linda cidade é Malange, beleza
que nos regala,
Mas às vezes ‘inda recordo os
velhos tempos de Zala.
O tempo aqui em Malange passa
sem darmos por ele,
Só custa mais a passar quando
estou de sentinela.
Com respeito ao futebol, nada
mais há a dizer,
Pois mesmo contra os canhões nós
conseguimos vencer.
Falando do nosso quartel, temos
melhores condições,
Por sairmos à civil até nos
chamam barões.
As jovens cá de Malange não
gostam de ouvir gracinhas,
E quando tal acontece ficam logo
de beicinha.
Quando chegam as cinco horas
todos vão para a cidade,
P’ra ver coisas tão boas que nos
fazem sentir saudade.
Malange, a Flor do Mato
por José Manuel Figueiredo
Embora não houvesse
acções de guerrilha no distrito de Malange, era uma paz vigiada e com alguma
tensão, sobretudo na zona de fronteira.
Mas era uma
terra maravilhosa, zona de planalto que descia abruptamente para a Baixa de Cassange, antigo mar que deixou minas de sal-gema, e fósseis aos pontapés na
beira dos caminhos. O rio Quanza atravessava o Distrito com umas quedas de pouca
altura, mas caudalosa; várias cascatas caíam do planalto para a baixa, o algodão
era o ouro branco que aumentou a produção para o dobro naquele ano, e o gado era
uma riqueza em crescimento. Saímos de Malange em princípios de Março de 1974,
desejando poder voltar para aquela região. Felizmente não assistimos ao
descalabro que se seguiu pouco depois, com a guerra fratricida que dilacerou
Angola.
Mesa da Rainha Ginga - A caminho de
Forte Republica, passava-se pela Mesa da Rainha Ginga, baptizada Ana de Sousa
depois de aceitar o tratado de paz com Portugal, e que a tradição dizia que
tinha tido ali o seu refúgio, e era impressionante ver aquele plano com o
tamanho de dois campos de futebol, ligado à berma do planalto por um caminho de
pé posto com uns 100 metros de comprimento e declive de 100% para ambos os
lados. Mas não era só ali que havia marcas da Rainha Ginga; também nas Pedras
Negras de Pungo Andongo, um conjunto de conglomerados de pedra negra nascidos no
meio da planície com mais de 100 metros de altura, havia a pegada da Rainha, um
baixo-relevo natural com a forma exacta de um pé descalço.
As quedas do Duque de Bragança - As quedas do rio Lucala
em Duque de Bragança eram o principal ponto turístico da
região e
ia-se lá várias vezes admirar a sua beleza majestosa que se adivinhava a muitos
quilómetros pelo seu trovejar contínuo.
José
do Telhado - Em Malange morava um senhor velhinho,
muito simpático, que tinha sido operado a um cancro da laringe e que falava
tapando o buraco que tinha na garganta. Chamava-se Chato, tinha sido Chefe do
Posto do Chiça, e disse que uma vez a esposa do Governador ficou muito ofendida
quando ao telefone lhe disse que era o Chato do Chiça! Mas era ali que se
encontrava o túmulo do Zé do Telhado, figura lendária e muito querido pelo povo
que até aos nossos dias cuidava do seu mausoléu; a lápide reza assim de um Homem
que nasceu obscuro nas Beiras e morreu homenageado pelo povo em Malange:
JOSÉ DO TELHADO - 1818 - 1875
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